A sinistralidade e os Jovens

Os jovens – 18/24 anos – constituem o grupo etário com maior índice de sinistralidade rodoviária. Na realidade, constituíram, em 2010 e 2011, 10,7% dos mortos e 15,7% dos feridos graves, quando apenas constituíam 7,7% da população. No ano de 2011, morreram em acidentes rodoviários 135 jovens de 18-24 anos por milhão de habitantes, contra 88 mortos por milhão de habitantes no global da população. Se a estes factos acrescentarmos que este grupo etário constitui aquele no qual a sociedade investiu tudo ou quase tudo quanto tinha para investir e do qual ainda nada ou quase nada recebeu em troca, é igualmente fácil de concluir que também do ponto de vista económico este facto é um problema da maior gravidade.

1- Caracterização da sinistralidade nos jovens

Alguns dados que ajudam a caracterizar a sinistralidade rodoviária desta faixa etária:

Em 2010 e 2011, 73.5% dos mortos, 66.8% dos feridos graves e 75.6% dos feridos ligeiros desta faixa etária eram utentes de veículos ligeiros e 19.9% dos mortos, 23.5% dos feridos graves e 14.5% dos feridos ligeiros eram utentes de veículos de 2 rodas a motor. Isto significa que 90.4% dos jovens dos 18 aos 24 anos que sofreram lesões corporais em acidentes rodoviários eram condutores ou passageiros de um automóvel ligeiro ou de um veículo de 2 rodas a motor.

Em 2010 e 2011, os jovens de 18-24 anos constituíram 10.0% dos mortos utentes de 2 rodas a motor, 15.5% dos feridos graves e 13.9% dos feridos ligeiros, quando constituíam 7.7% da população.

Daqui se conclui que os jovens condutores de veículos a motor constituem um grupo de elevado risco que é prioritário conhecer para definir políticas de actuação eficazes com vista à redução do seu envolvimento em acidentes rodoviários.

Nos fins de semana, em 2010 e 2011, morreram 48.0% do total de mortos desta faixa etária, enquanto apenas morreram 33.8% do total de mortos das restantes faixas etárias.

Os jovens do sexo masculino constituem 75.5% dos mortos, 75.3% dos feridos graves e 57.1% dos feridos ligeiros na faixa etária 18-24 anos. E como condutores, representam 83.6% dos mortos, 83.6% dos feridos graves e 65.4% dos feridos ligeiros.

Estes dados permitem concluir que os jovens de 18-24 anos:

  • Estão sobre representados como intervenientes e vítimas dos acidentes rodoviários, sobretudo vítimas graves – 7.7% da população constitui 10.7% dos mortos e 15.7% dos feridos graves,
  • São utentes de veículos automóveis ou de veículos de 2 rodas a motor que constituem a grande maioria das vítimas desta faixa etária – 90.4% do total,
  • Apresentam muito maior incidência de sinistralidade grave aos fins-de-semana do que as restantes faixas etárias.  Em 28.6% do período semanal, na faixa etária 18-24, verificam-se 42.7% dos condutores mortos, 55.1% dos passageiros mortos e 50.0% dos peões mortos, enquanto nas restantes faixas etárias, apenas se verificam 34.9% dos condutores mortos, 41.4% dos passageiros mortos e 25.4% dos peões mortos.
  • Apresentam muito maior incidência relativa, em termos de vítimas graves, como passageiros – 39.8% do número de mortos 18-24 contra 19.2% para todas as idades, e muito menor incidência enquanto peões – apenas 4.1% dos mortos para a faixa etária 18-24 contra 21.6% para todas as idades.
  • Os jovens do sexo masculino desta faixa etária apresentam muito maior risco relativo como condutores do que os do sexo feminino, com maior expressão na sinistralidade mais grave – 83.6% dos condutores mortos e dos feridos graves versus 65.4% dos condutores feridos ligeiros.
  • Apresentam muito maior sinistralidade nos períodos de má visibilidade (noite e crepúsculo) do que os restantes utentes – 57.7% dos mortos, 53.5% dos feridos graves e 42.3% dos feridos leves, face a 39.7% dos mortos, 35.0% dos feridos graves e 25.4% dos feridos leves das restantes faixas etárias.

2- Quanto à velocidade
  • 27.5% dos condutores masculinos desta faixa etária assume conduzir mais depressa do que os outros (16.3% diz conduzir mais devagar) enquanto apenas 15.5% da totalidade dos condutores assume conduzir mais depressa (28.9% afirma conduzir mais devagar).
  • 49.4% dos condutores masculinos de 18-24 anos, afirma que ultrapassa frequentemente ou sempre os limites de velocidade (13.6% afirma que nunca ou raramente), contra 37.3% do total de condutores masculinos (31.3% destes diz que nunca ou raramente o faz).
  • Dos condutores masculinos de 18-24 anos, 12.5% considera que não devia haver limite de velocidade nas auto-estradas e 56.3% acha que esse limite devia ser mais elevado (nenhum acha que o limite devia ser mais baixo), enquanto da totalidade de condutores masculinos, 10.8% acha que não devia haver limite e 43.7% que o limite devia ser mais alto (5.6% acha que devia ser mais baixo).
  • 23.5% dos condutores masculinos de 18-24 anos concorda e 37.0% discorda que os fabricantes não deviam poder salientar a velocidade atingida na publicidade como factor de promoção dos seus veículos, enquanto no global dos condutores masculinos, 41.8% concorda e apenas 29.1% discorda dessa possibilidade.
  • Enquanto 79.5% da totalidade dos condutores masculinos aprova o controlo da velocidade por câmaras automáticas, na faixa etária de 18-24 anos, apenas 73.8% dos condutores masculinos aprovam tal controlo.
  • Conduzir demasiado depressa é considerado como causa muito frequente de acidentes para 77.5% dos condutores de 18-24 anos e para 80.6% da totalidade dos condutores.
  • 57.4% dos condutores de 18-24 anos afirma gostar de conduzir depressa, percentagem que vai descendo com o aumento da faixa etária – 53.6% para 25-39 anos, 37.5% para 40-54 anos e 17.7% para igual ou superior a 55 anos.

Estes dados permitem concluir que os condutores masculinos de 18-24 anos:

  • Conduzem mais depressa do que os outros e gostam mais de conduzir depressa,
  • Acham mais do que os outros que os limites de velocidade deviam ser aumentados,
  • Acham menos do que os outros que conduzir demasiado depressa seja muito frequentemente causa de acidentes,
  • São mais tolerantes com o recurso à velocidade na promoção publicitária por parte dos fabricantes de carros,
  • Aprovam menos a utilização de meios mais eficazes no controlo dos excessos de velocidade praticada.

3- Quanto ao álcool e drogas na condução
  • Os condutores desta faixa etária apresentam hábitos de consumo de álcool substancialmente diferentes dos hábitos da restante população condutora. Na realidade, apenas 3.5% dos condutores de 18-24 anos bebe álcool 5 ou mais dias por semana, enquanto a média geral que o faz é de 22.9%. Cerca de 30% quer do grupo de 18-24 anos quer da totalidade dos condutores não bebe.
  • No entanto, de cada vez que bebem álcool os condutores de 18-24 anos ingerem quantidades substancialmente superiores do que as das restantes faixas etárias, normalmente nas noites de fim de semana.
  • Os condutores de 18-24 anos concordam ligeiramente menos do que os restantes que conduzir depois de beber álcool é muito frequentemente causa de acidentes, concordando também menos quanto à necessidade de agravamento da punição para a condução sob a influência de álcool.
  • Concordam igualmente menos do que os condutores das outras faixas etárias com o facto de que tomar drogas e certos medicamentos antes de conduzir seja frequentemente causa de acidentes.
  • Os condutores com menos experiência, quer de condução quer de ingestão de bebidas alcoólicas, apresentam índices de envolvimento em acidentes rodoviários mais elevados com taxas de alcoolemia mais baixas.

Estes factos permitem concluir que os condutores 18-24 anos:

  • bebem álcool menos frequentemente que os restantes, mas maiores quantidades de cada vez, atingindo, quando bebem, taxas de alcoolemia mais elevadas,
  • desvalorizam mais do que os outros condutores a influência do álcool e sobretudo das drogas e medicamentos como causa de acidentes,
  • aceitam menos do que os outros maior frequência na fiscalização, bem como o agravamento das penas.

4- Quanto ao uso do cinto de segurança
  • Os condutores desta faixa etária concordam quase a 100% que o uso do cinto de segurança reduz o risco de ferimentos graves nos condutores e passageiros, mas 21.5% dos condutores do sexo masculino ainda acha que se “conduzir com cuidado”, os cintos não são necessários, e cerca de 85% pensa que existe o perigo de ficar preso pelo cinto em caso de emergência.
  • Nas observações efectuadas, nota-se uma grande utilização generalizada do uso do cinto de segurança pelos condutores e passageiros dos bancos da frente, mas uma muito reduzida utilização por parte dos passageiros dos bancos de trás.

Estes factos permitem concluir que:

  • os passageiros da faixa etária de 18-24 anos, que constituem um grupo de risco importante face aos passageiros dos restantes grupos etários, utilizam muito pouco o cinto de segurança quando viajam nos bancos da retaguarda.

5- Quanto ao uso do telemóvel durante a condução
  • Os condutores desta faixa etária afirmam efectuar chamadas telefónicas com mais frequência do que os restantes – 51.9% dos condutores homens dos 18-24 anos contra 35.1% do total dos condutores homens, e também receber e atender com mais frequência – 67.9% contra 48.9% para os mesmos grupos.
  • Os condutores de 18-24 anos consideram menos perigoso para a ocorrência de acidentes o uso do telemóvel durante a condução do que os restantes condutores – apontando como frequente causa de acidentes 62.4% contra 69.6% por parte da generalidade dos condutores,
  • O uso do telemóvel com sistema “mãos livres” é apenas apontado como frequente causa de acidentes por 7.8% dos condutores de 18-24 anos e por 17.9% da totalidade dos condutores.

Estes factos permitem concluir que os condutores  de 18-24 anos:

  • Utilizam com frequência o telemóvel durante a condução, fazendo-o mais do que os restantes condutores, sendo mais utilizado para receber do que para fazer chamadas,
  • Desvalorizam mais do que os restantes condutores a frequência com que o facto de falar ao telemóvel seja causa de acidentes, sendo muitíssimo desvalorizada a influência que o facto de falar com o sistema de mãos livres possa ter como causa de acidentes.

6- Conclusões

As investigações na área mostram que os comportamentos de risco dos jovens na condução fazem parte de uma variedade de comportamentos de risco que ocorre nesta faixa etária e que aparece ao serviço de funções desenvolvimentais. Exemplos de processos desenvolvimentais que parecem estar associados aos comportamentos de risco incluem a formação da identidade, a integração no grupo de pares e o desejo de alcançar o estatuto de adulto. Além disso, os jovens percepcionam mal o risco para si e para os outros e consideram-se imunes ao acidente.

Daqui se conclui que assistimos nos jovens desta faixa etária a um paradoxo: a fase de desenvolvimento em que estão perto de alcançar o auge das suas faculdades físicas e psíquicas é também uma fase em que precisam de testar a realidade e os seus limites e, fazendo-o ao serviço do seu próprio desenvolvimento e crescimento, criam um equilíbrio periclitante que os fragiliza e os torna vulneráveis ao risco. Ou seja, a fase da vida em que são mais saudáveis, é a fase de maior morbilidade e mortalidade por acidentes rodoviários.

Algumas preocupações e opiniões dos condutores de veículos automóveis da faixa etária de 18-24 anos

92.9% destes condutores afirmam estar bastante preocupados com os acidentes rodoviários, preocupação que aparece apenas ultrapassada, ainda que pouco, pela relativa ao desemprego e pela taxa de criminalidade, e superior, embora não muito, à preocupação pela poluição e pela qualidade da saúde pública.

Em termos gerais, como medidas de política para melhorar a situação dos acidentes rodoviários, afirmam ser totalmente a favor de:

  • melhorar a qualidade das estradas – 96.5%
  • melhorar a formação dos condutores – 92.9%
  • realizar mais campanhas de segurança rodoviária – 82.3%
  • aumentar a fiscalização das leis do trânsito – 81.6%

Correm normalmente mais riscos enquanto conduzem do que os condutores de qualquer outra faixa etária, mesmo em termos de risco declarado, como podemos confirmar no quadro 2, onde se apresentam declarações de condutores de diversas faixas etárias que assumem praticar frequentemente ou sempre as seguintes acções:

Daqui se podem tirar as seguintes conclusões:

  • Apresentam grande preocupação com os acidentes rodoviários,
  • A medida que mais apoiam (melhorar a qualidade das estradas) representa uma externalização de responsabilidades,
  • Reconhecem maciçamente a necessidade de melhorar a formação de condutores, sendo o grupo que mais recentemente recebeu essa mesma formação,
  • O aumento da fiscalização é, de entre as medidas de política de segurança rodoviária, a que menos apoio desperta,
  • Assumem correr mais riscos do que os condutores das outras faixas etárias.

Notas Finais:

Os jovens apresentam características, quer do domínio físico quer do psíquico, que condicionam o comportamento seguro no trânsito. A imaturidade, característica dos jovens que estão em fase de desenvolvimento físico, social e psíquico, associada à inexperiência natural que apresentam como condutores, desencadeia a prática de mais falhas por parte dos jovens do que por parte dos condutores mais experientes.

Os jovens apresentam características específicas que condicionam o seu comportamento seguro no trânsito:

  • Têm prazer em conduzir com muita velocidade, gostam da sensação de correr riscos, vivem intensamente o momento, têm tendência para testar as suas capacidades e consideram-se invulneráveis.
  • Têm uma imagem muito positiva de si, preocupam-se constantemente com a sua imagem, necessitam de auto afirmar-se a cada momento, tendem a impressionar os outros, principalmente os seus pares, revelam prazer em ter comportamentos exibicionistas no trânsito.
  • Sobrevalorizam as suas capacidades e competências, julgam que conseguem responder a determinada situação de trânsito de forma eficiente e assim vão adoptando comportamentos de risco.
  • Subestimam a complexidade das situações de trânsito, avaliando de forma deficiente a quantidade e qualidade de estímulos oriundos do trânsito.
  • Revelam inexperiência no desempenho na tarefa da condução.
  • Querem ser independentes e assim desvalorizam as referências e orientações familiares.
  • O consumo de álcool, mesmo em pequenas quantidades, tem um impacto maior na redução das capacidades dos jovens e consequentemente no envolvimento em acidentes, especialmente nos mais graves.
  • O consumo de drogas aliado à ingestão de álcool leva a situações ainda mais graves.
  • Distraem-se mais que condutores mais experientes, o que torna ainda mais perigoso falar ao telemóvel durante a condução.